luto museu nacional
 
A potência simbólica das chamas que engoliram o Museu Nacional é o quadro mais devastador de um governo que trata recursos para educação, cultura, ciência e tecnologia como gastos, e não como investimentos. Esse quadro sintetiza a duração e aprimoramento de um desprezo recalcitrante pela coisa pública, pelos valores dos povos, pela identidade das nações, pela memória e educação de milhões de brasileiros.
 
O bicentenário do nosso Museu Nacional está marcado por uma tragédia sem precedentes, que retira do mundo das coisas, de uma só vez, uma fabulosa reunião de objetos coletados ao longo de séculos, objetos-testemunhos de outras eras, de outras épocas, de tantas civilizações e dos valores sobre os quais se assentavam. Faz também desaparecer a produção de milhares de pesquisadores comprometidos com o patrimônio público, com a pesquisa e com a formação de gerações de jovens e adultos em nosso país. 
 
O vazio deixado pelo fogo da Ignorância, da Arrogância e da Intransigência para com muitos aspectos da humanidade e, especialmente, para com a memória dos povos, da ciência e da cultura de nosso país, é brutalmente preenchido pelo entendimento de que “cultura”, para sucessivos governos, não passa de um conceito submetido à lógica mercantil. O Museu Nacional, o maior museu de História Natural e Antropologia da América Latina, ainda ardia, na noite de domingo, quando o Ministro da Cultura, Sérgio Sá Leitão, declarou que começaria “nesta segunda a fazer o projeto de reconstrução do Museu Nacional”. Um projeto impossível.
 
A produção cultural brasileira não interessa verdadeiramente aos que, eleições após eleições, ocupam cargos para defender interesses particularíssimos e referendar o fabuloso engano de que o que é “público” é insustentável. Esquecem de dizer que há escolhas políticas que inviabilizam a coisa pública, inviabilizam a vida em um país, que sufocam, ferem e matam um país inteiro.
 
O primeiro ato de consciência de milhões de brasileiros, no dia seguinte a essa tragédia, foi colorido pelas chamas evocativas de um inferno. O pesadelo vai perdurar em nossa memória coletiva e quem sabe a tomada de consciência das infinitas perdas ocorridas na noite de domingo, dia 02 de setembro de 2018, promova condições há tanto desejadas para que nos assumamos um país pluriétnico, plurinacional, multilinguístico e multiconfessional, tal como aparecia figurado no Museu Nacional. 
 
A tragédia envolvendo esse lugar de memória e de produção de conhecimento, de valor inestimável para toda a humanidade, expõe a destruição de um dos raros lugares em que o Brasil mais se fazia reconhecer e valorizar pela sua diversidade e riqueza étnica, cultural, artística, linguística, mineral, zoológica e botânica, tudo isso diligentemente tratado e exposto por um corpo de servidores públicos – professores, pesquisadores, técnicos-administrativos – e de alunos e visitantes que há gerações puderam beneficiar-se da produção científica e do variado acervo reunido no Museu Nacional. 
 
O Museu Nacional em ruínas é o símbolo da fúria de uma trindade: Ignorância, Arrogância, Intransigência. E essa nota do IPPUR é um posicionamento em defesa de outros valores para que os bens públicos – a começar pela nossa própria língua – sejam defendidos como bens inalienáveis.
 
Por isso, o IPPUR-UFRJ presta total solidariedade aos colegas da Direção do Museu Nacional, aos coordenadores dos Programas de Pós-Graduação do Museu Nacional, seus professores, alunos e técnicos-administrativos, aos trabalhadores terceirizados que também estão vivendo esse luto, assim como ao Reitor e aos Pró-Reitores da Universidade Federal do Rio de Janeiro. 
 
Estamos atentos a toda e qualquer notícia que precise ser esclarecida para que a alocação das responsabilidades seja justa. Para tanto, este Boletim IPPUR, assim como a página do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional, serão os espaços destinados a esse fim, com a divulgação de notas e elucidação de notícias ambíguas ou insidiosas concernentes ao longevo descaso e políticas públicas de preservação do patrimônio histórico sucateadas e ainda vinculadas a uma agenda política de interesses neoliberais que culminou no incêndio do Museu Nacional.
 
04/04/2018.

 

UFRJ IPPUR - UFRJ
Desenvolvido por: TIC/UFRJ