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por Fabio Canetti

 

Trabalho no mercado do cinema e da televisão desde 2011, sou um funcionário autônomo da indústria do audiovisual. Desde o começo da minha caminhada, notei coisas absolutamente tortas na maneira que a cultura como um todo é gerida e proposta no Brasil. No meio desse pandemônio que é a combinação da Covid-19 com o desgoverno de Bolsonaro, discorro sobre a crise no cinema e tv que é onde tenho mais propriedade pra falar. 

 

Nos últimos 5 anos, o país teve 2 anos de recessão e 3 anos de crescimento de pouco mais de 1%. A cultura acompanhou a derrocada, porém teve sua crise amplificada pelo próprio governo. Ela sofreu ataques e desmontes capitaneados por um discurso de ódio, de polarização e de cisão. A censura de diversos projetos e artistas que estariam em desacordo com a nova proposta para a pasta, se tornou comum no governo Bolsonaro. Com cortes radicais de recursos, foi desenhado um cenário atual capenga e um futuro nebuloso para artistas, empresários do setor, técnicos e trabalhadores. A cultura e o cinema vem sofrendo com um vírus da ignorância, brutalidade e manipulação desde o início de 2019. 

 

A Ancine, que vem sendo ao mesmo tempo desmontada e aparelhada pelo governo, vê seu legado ruir. Bolsonaro ameaça acabar se esta não puder ter seus “filtros”. O número de filmes brasileiros lançados, que vinha subindo desde a retomada na década de 90, e ganhou força com a criação da Ancine em 2001, caiu 10% em 2019 em comparação com o ano anterior. Não que nos  governos de PSDB e PT a cultura estivesse em um lugar muito confortável e com uma plataforma ampla de difusão para o objetivo a qual ela se propõe, que é espelhar seu povo, propor indagações e caminhos, mostrar novos significantes e significações acerca do indivíduo. Mas nunca antes, arrisco dizer, nem no período nebuloso do golpe militar, ela foi tão abertamente perseguida e sufocada. 

 

Tanto a Ancine quanto as leis de incentivo à cultura são imprescindíveis para a atividade cultural no Brasil. Essas leis, porém, precisam ser atualizadas e revistas. Elas criam aberrações, como uma assimetria de recursos para o eixo Rio -São Paulo, criando nichos de investimento ao invés de irrigar a indústria como um todo. Deixando por fim, tanto a verba do fomento direto como do indireto na mão de poucos grandes produtores e artistas, desequilibrando totalmente a cadeia produtiva. Em um país continental como o Brasil é essencial que a capilaridade de investimentos em cultura seja transmitida e dialogue com o resto do país. 

 

A famigerada Lei Rouanet, pouco conhecida na prática mas muito criticada por grande parte da população, sofreu mudanças em 2019. Na verdade amputações, entre elas, a principal é a diminuição do valor máximo que um projeto pode captar, antes R$60 milhões agora apenas R$1 milhão. Ao invés de modernizar seus mecanismos de incentivo, o governo apenas corta, sem saber onde nem o porquê. Mas os cortes e ataques à classe artística estão sempre de acordo com seu discurso, amparado e amplificado por apoiadores e robôs que ajudam a disseminar o ódio e a polarização através de grupos de Whatsapp.

 

Dito isto, eu e tantos outros técnicos e trabalhadores do audiovisual brasileiro agonizamos sem o respaldo e a proteção do governo, nos vemos sem garantias básicas sociais, sem licenças remuneradas, e pouca barganha junto a produtoras, que por uma brecha da lei nos empregam como pessoas jurídicas. Assim somos de alguma forma empregados e patrões de nós mesmos. Essa configuração nos deixa tremendamente vulneráveis e inseguros, especialmente em tempos de uma crise sem precedentes como essa que nos encontramos. 

 

A forma como o cinema está sendo achincalhado, abre um caminho enorme para que os grandes serviços de “streaming” ditem o novo ritmo do audiovisual, reorganizando o mercado, salários e de uma maneira geral como e o que se filma e se consome por aqui. Nós, que já tínhamos dificuldades de nos expressar com nossos próprios mecanismos, não temos mais o apoio do governo, e o povo vai ficando cego e maleável a espera da próxima temporada de alguma série sobre zumbis ou alguma reprise de seriados famosos.  

 

A crise que nos rodeia, antes mesmo desta pandemia com tons de filme de apocalipse, já pintava um quadro de “Munch”. O grito dos profissionais da cultura e artistas perdeu volume e não reverbera mais em quase nenhuma camada da sociedade. Enquanto a classe média navega num mar virtual de algoritmos e “Fake News” institucionalizado pelo governo, que expõe os artistas como parasitas de esquerda que sugam o sangue e o suor do bom brasileiro médio, Bolsonaro vai impondo seus “filtros” na Ancine.

 

A cultura deve prioritariamente ser livre, diversa e em constante mutação. Neste momento a proposta da mesa é cinza, encaixotada, rotulada e sedentária. Não há nada mais ideológico como a cultura rabiscada por este governo. 

 

A existência da Ancine, bem como seu fortalecimento e desaparelhamento por parte do governo, é fundamental para a existência e o desenvolvimento do cinema nacional.

 

O Brasil é um país que conta pouco a sua história, por aqui não há espelhos e referências para nossos adultos e crianças. Temos poucos olhos para dentro e muito para fora. O investimento em cultura nos possibilita  enxergar com mais nitidez, e propor caminhos e soluções para um país tão diverso, rico e sem unidade. O governo já deu as costas ao cinema, Bolsonaro põe em risco um setor que alavanca por ano R$20 bilhões do PIB e emprega mais de 330 mil trabalhadores. O Covid-19 do audiovisual é o Bolsonaro-17.

 

Neste momento de crise aguda e estado de exceção com um país absolutamente desgovernado, nós trabalhadores técnicos do audiovisual ficamos até então totalmente desassistidos, não possuímos qualquer acesso a seguridade social. Até o momento quem estava empregado em algum projeto dos grandes serviços de streaming, estão com os contratos suspensos e sem receber salários. Apesar de terem dado boa sobrevida para o setor, salvando empregos e a produção, os novos “players” do setor como Amazon, Netflix e GloboPlay parecem, por enquanto, nos ver apenas como números em planilhas. Está se desenhando um salve-se quem puder. 

 

Esse vírus mais parece um botão de “reset” para um mundo que não via mais pavimento para o crescimento infinito. Ele traz no mesmo pacote medo e esperança. É hora de dar passos atrás e reorganizar!  

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