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Por John Max Santos Sales

 

 Foto: Morgana Valim

 

O COVID-19 chegou ao Brasil e acentuou ainda mais as múltiplas expressões de desigualdades e, com isso, sabemos quem sofrerá as piores consequências nas cidades. Trouxe algo que vai de encontro a tudo que os urbanistas têm propagado veementemente nos últimos tempos: a rua. Agora, em casa, o teto ganhou a incumbência de substituir a noite estrelada e a luz da lâmpada dá lugar à lua. As gerações contemporâneas têm agora a obrigação de mudar seu comportamento, quer seja consigo mesmas, quer seja para com os outros, a todo o momento.

 

E agora, como me permitir com tudo que me situa? Como devo agir na rua?

 

As saídas têm sido poucas, mas quando ocorrem, têm algo de estranho no ar. A cada passo que se segue nas calçadas, ganha-se um afastamento por quem vem de lá. De olho nos transeuntes na rua, sou provocado a pensar: será que essa pessoa porta o vírus? Assim como também certamente quem me olha deve questionar: será que ele está tomando os cuidados devidos? Sigo na caminhada a repelir quem está por vir, não posso querer ninguém por perto, pois tenho medo de contrair.

 

Imagina! Aquela paquera ao ar livre, o encontro de olhares pelas ruas... Hora de revogar. Se sem querer me deparo com um flerte correspondido, com uma expressão no rosto, digo: desculpa, agora não dá. Será que poderia número de telefone trocar? Não, melhor nem arriscar. Com passos firmes vou ao supermercado, rezando para que todos os bens que eu quero ali se encontrem e que também não esteja tumultuado.

 

Sigo adiante como se estivesse em uma pista de kart, desviando ao máximo e com rapidez, sem encostar. Como um corpo negro que transita pelas ruas, já acostumado com corpos que “naturalmente” ao seu encontro vai desviar. Entretanto, esse jogo tem sido ampliado e qualquer pessoa que esteja por perto, ao lado, a ordem é: se afastar. Se antes as cidades já não ofereciam tanto afeto, agora tornou-se legítimo constituir um veto.

 

E quem ainda não sabe o que está acontecendo? Quem está nas ruas, percebe as mudanças e não encontra explicações? É o olhar e o ouvido dos excluídos, dos menos, dos desvalidos, a quem não é permitido opiniões, tampouco elucidações. Uma moradora em situação de rua pergunta ao transeunte: o que ocorre? Por que todos estão usando máscaras? Vejo que o andante responde: Não está sabendo? Uma pandemia aqui se escancara. Agora é Deus por todos e todos, separados, em suas casas. Mas a moradora em situação de rua indaga: se eu não tenho casa, como vou me cuidar? O passante já quase correndo responde: sinto muito, mas em nada posso te ajudar. Logo, se estes mesmos, a mercê de sua vulnerabilidade, dependiam da bondade da rua, agora se veem sem amparo, pois a cidade está calada e nua.

 

Somem os poucos pontos de apoio, não se sabe a quem pode recorrer por comida e água, pois as ruas que eram estabelecimentos de base, agora não estão servindo nada. Quando pouco recurso se encontra, vejo que o tumulto começa, pois são muitos para dividir o insuficiente, e não há nada que os impeça. Alguns ficarão vendo de camarote as ações de violência e humilhação provocadas pela disputa acirrada. Começa mais uma guerra silenciosa, que tampouco será televisionada, quiçá solucionada.

 

Enquanto isso a classe média e alta convive com seu sofrimento débil, arranjando maneiras fúteis de combater o tédio. Se houver relação com a rua poderá ser via perversão, o pior dos remédios. Contrariar tranquilamente o sistema sem querer saber se afetará o mais próximo. Se para e reflete, deve pensar: é minha obrigação? Para tranquilizar a própria mente, responde a si mesmo: Humm... não. 

 

Na contramão, a forma de demonstrar afeto na cidade, neste momento, é se dispor a estar separado e afastado. Enquanto isso, seguem juntos e próximos os condenados da cidade, na disputa pelos parcos recursos que possam ser encontrados. Os privilegiados prosseguem distanciados, com suas múltiplas opções de combater o ócio, com casa, comida, roupa lavada e seriados. 

 

Longe de mim achar que o problema da cidade é resolvido com caridade. Mas se na ida ao supermercado se deparar com um morador em situação de rua, não hesite, lhe compre algo que agrade, que lhe sacie não só a fome, mas que alimente um sorriso que garanta um nível de humanidade. E se o cruzamento com os corpos na caminhada der início a desvios que provoquem um sentimento de animosidade, reaja ao sistema e com distanciamento sorria com uma expressão no rosto que traduza: vai ficar tudo bem, de verdade. Se a cidade te obriga a passar reto, sejamos subversivos e mostremos afetividade.

 

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1. Economista (UFS), Tecnólogo em Saneamento Ambiental (IFS), Especialista em Educação Empreendedora (PUC/Rio), Mestre em Planejamento Urbano e Regional (UFRGS) e Doutorando em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR/UFRJ). Professor da Universidade Estadual do Tocantins.

2. Alusão ao livro “Os condenados da cidade” de Loïc Wacquant.

 

*Agradecimentos à amiga Prof.ª Mariana Galacini Bonadio pela leitura, reflexões, troca de ideias e compartilhamento de sensibilidade em tempos de pandemia. 

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