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Marcelo Coutinho

Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)

 

Muito ocupada em combater a disseminação do coronavírus nas ruas, aeroportos e hospitais, como é de se esperar, pouca atenção tem sido dada pela comunidade internacional aos efeitos geopolíticos dessa pandemia, cujos significados sociais vão muito além da medicina e da economia. Neste breve artigo, argumento que, assim como a gripe espanhola de 1918 demarcou o início do processo de mudança do poder mundial de Londres para Washington, o Covid-19 representa também um divisor de águas mórbido na política internacional, mais exatamente uma transição de poder entre os EUA e a China. Ao contrário de cem anos atrás, em que pese a guerra comercial agora em pleno vigor, não há dessa vez uma grande guerra em termos militares combinada com a pandemia. No entanto, a simbologia desses dois casos tem muitos paralelos. 

 

Enquanto o presidente norte-americano, Woodrow Wilson, liderava na Europa o surgimento de uma nova ordem mundial, mediante o Tratado de Versalhes, a gripe espanhola, na verdade, originalmente americana, matava dezenas de milhões de pessoas, muito mais do que matou a própria grande guerra. Para se ter uma ideia, apenas na cidade do Rio de Janeiro, que contava com uma população de apenas 900 mil habitantes, foram contaminadas 600 mil pessoas pela gripe espanhola e mais de 15 mil pacientes morreram, isto é, quase 70% dos cariocas foram infectados naquele período. O percentual de mortos foi proporcionalmente menor do que na Europa em razão do clima e da distribuição etária da população brasileira. A gripe espanhola produzia óbitos numa curva de idade em W: crianças bem pequenas, jovens com os seus 30 anos e os mais idosos (o coronavírus gera óbitos em pessoas acima de 60 anos, sobretudo). No restante, o vírus se mostrou menos letal. Há de se recordar que o próprio Presidente da República da época, Rodrigues Alves, morreu aos 70 anos dessa gripe, sendo substituído pelo então vice-presidente Delfim Moreira. Somente no dia 22 de outubro de 1918, a gripe espanhola matou 930 pessoas na cidade do Rio de Janeiro, no ápice da crise.

 

Cem anos depois, projeta-se que a antiga capital federal venha a ter até o fim de 2020 um número muito maior de infectados pelo coronavírus em razão do tamanho populacional também muito superior hoje no Rio de Janeiro. Estima-se que cerca de 65% da população na cidade e no país será contaminada, levando, provavelmente, a um número grande de mortos. Em janeiro de 2020, Japão e Coreia relatavam os primeiros casos de infecção pelo novo coronavírus fora da China, agora a grande potência emergente da ocasião, como os EUA foram há um século. Tal qual o passado, foi na Europa de novo onde a tragédia assumiu dimensões apocalípticas, especialmente na Itália e logo em seguida na Espanha. Pouco a pouco, os EUA se transformaram no novo epicentro da pandemia do coronavírus, enquanto na China, foco original, a epidemia parece já ter sido estabilizada. Pequim, então, desponta como a grande vendedora de insumos médicos e colaboradora internacional no combate ao vírus, após omissões iniciais do seu governo semelhantes nisso ao que fizerem os mandatários no fim da primeira guerra mundial. Naquela época, como agora, os governos autoritários buscaram no início abafar o problema, escondendo sua gravidade, tornando tudo ainda pior, e acabaram todos reunidos na mesma mesa de negociação nos castelos do entorno parisiense, discutindo a nova ordem mundial, conhecida como Sociedade das Nações.

 

Vale lembrar que o mundo atualmente é muito mais globalizado do que cem anos atrás. Naquele capítulo da história, o vírus levava muitos dias de navio até atravessar os oceanos. Hoje em dia, os contatos são praticamente instantâneos, e a transmissão funciona quase como uma “bomba atômica biológica”: viaja de avião em horas e, quando chega a um outro território, cai como uma bomba, e rapidamente explode uma nova contaminação em massa. Por outro lado, as ações de combate ao vírus também são mais velozes, a exemplo das quarentenas que eclodem sucessivamente mundo afora tão logo acontece a conscientização do problema, num ritmo muito superior agora. A cooperação científica internacional é outro elemento dessa mesma globalização que joga a favor do combate ao vírus. Se há um século o fenômeno global das relações internacionais só estava em sua primeira versão em andamento, agora ele está superdimensionado, para o bem ou para o mal.

 

Após a gripe espanhola, o mundo viu surgir um novo tipo de totalitarismo, conhecido como nazifascismo. As mazelas da guerra e da peste criaram as condições ideais para o surgimento desse fenômeno político, em particular na Alemanha, outra potência emergente à época. Houve o que se chama, na literatura especializada, de primeira onda de retrocessos autoritários, que vai até 1943. Os problemas econômicos, agravados depois do choque de 1929, contribuíram para um ambiente pouco propício à democracia. Ressalva feita, no entanto, ao Estado de bem estar social que já dava nesse período os seus primeiros passos. As condições desiguais do capitalismo nas democracias, com seus enormes problemas sociais, atreladas ao surgimento de regimes políticos autoritários concorrentes e à própria necessidade de sistemas públicos de saúde, em função do trauma gerado pela gripe espanhola, fizeram com que um novo tipo de política entre Estado e sociedade aparecesse, e na qual as políticas públicas de atendimento social fossem mais contempladas, mais tarde inclusive incorporadas no rol das políticas de direitos humanos.

 

Com o coronavírus, não só o Estado volta a ter um papel maior no socorro da economia e das famílias empobrecidas, mesmo sem condições fiscais, como uma escalada autoritária é também uma das possibilidades em diferentes contextos nacionais, tendo em vista dois fatores principalmente. Em primeiro lugar, situações de desespero como essa da pandemia tendem a despertar um conjunto de valores, crenças e opiniões mais preocupadas com a segurança do que com a liberdade. O vírus gera medo, que gera demanda por segurança, que pode gerar menos democracia, desde bloqueios (lockdown) ao direito de ir e vir das pessoas nas ruas até centralização do poder, insulamento tecnocrático, desarticulação de protestos e suspensão de eleições. É comum nessas horas de grande crise emergirem lideranças demagógicas com um discurso inflamado, e até mesmo algum tipo de visão superior/inferior de raça como foi na época Hitler. Todo o trabalho do judiciário e do Ministério Público contra o crime também pode ser atrapalhado por uma onda pandêmica dessa natureza. A quarentena muito prolongada, ainda que necessária, sobretudo se ela for compulsória, é um facilitador do autoritarismo. Mantém as pessoas trancadas em casa sobre controle da pandemia, mas também pode servir de pretexto para conspirações antidemocráticas.

 

O segundo fator é a própria China. Diferentemente da gripe espanhola, em que tivemos o início da ascensão de uma nova potência hegemônica democrática, os EUA, dessa vez o coronavírus fortalece ainda mais o regime asiático autocrático face ao declínio relativo norte-americano. O autoritarismo chinês é pivô dessa crise desde que sua baixa transparência nas informações se tornou um grande complicador da pandemia, além do fato de terem fechado de cima para baixo cidades inteiras, isolando as pessoas sem nenhum debate público. Mas não só por isso. O modelo de modernização autoritária da China é cada vez mais uma fonte de inspiração no mundo, assim como o modelo liberal americano um dia também já foi. Além do vírus, há o risco de contágio do próprio regime autoritário de Pequim para outros países. Na história da humanidade, as grandes potências sempre tentaram fazer do mundo sua imagem e semelhança.  Se isso estiver correto também para o império do meio, a China, então, podemos esperar talvez uma nova onda de transições autoritárias em diferentes continentes nos próximos anos, sejam esses retrocessos inspirados no desenvolvimento chinês sejam eles até mesmo patrocinados por Pequim, como supõe uma política realista. A influência do país asiático é notória e não se limita mais aos meios econômicos e empresariais. Sua influência já se estende aos meios político, jornalístico e acadêmico.

 

No século XX, os Estados Unidos ergueram todo um complexo de instituições internacionais mais abertas e baseadas em regras, incluindo os direitos humanos contra os quais a China se coloca diretamente. Tendo em vista ser um estado capitalista sem direitos, a grande potência asiática abriga a contradição de, por um lado, beneficiar-se da liberalização econômica global em termos de crescimento, e por outro, opor-se à defesa dos princípios democráticos e da liberdade dos indivíduos, além de ver com desconfiança qualquer luta das minorias e dos movimentos sociais. É difícil imaginar que quaisquer organismos internacionais que não sejam estritamente favoráveis à sua expansão econômica possam contar com o apoio chinês. A pandemia do coronavírus tem mostrado a importância dessas organizações, em particular, da Organização Mundial da Saúde (OMS), que parece ter sido agora fortalecida. Em que pese as iniciativas nacionais protagonistas, é no âmbito do sistema ONU, criado no pós-guerra na esteira da Liga das Nações, em que se observa alguma coordenação entre os países capaz de gerar programas de cooperação internacional para o enfrentamento de problemas globais. A saúde é um tema neste momento central, mas tal coordenação mundial se dá em várias outras áreas e mediante toda uma institucionalidade herdada do período de hegemonia norte-americana. Como ficam as instituições internacionais numa era de ascensão chinesa é, no mínimo, uma incógnita. 

 

No caso específico do coronavírus, Pequim não passou todas as informações e o fez tardiamente, dificultando muito e num momento crucial o trabalho da OMS, por razões que só cabem em um estado autoritário. O organismo regulador da saúde mundial não soube muito bem o que aconteceu no último trimestre 2019 na China, meses imediatamente anteriores à eclosão da pandemia e fundamentais para se compreender a dinâmica epidemiológica desse vírus, que acabou se mostrando muito mais agressivo e veloz no Ocidente do que havia de informação disponibilizada pelo regime fechado de Pequim. Vale notar que a China é hoje a principal fornecedora de insumos de medicamentos essenciais para uma série de outras doenças. É também uma incógnita como ficará a regulação e distribuição desses produtos no auge da pandemia. À princípio, caberia à OMS desempenhar esse papel de árbitro e coordenador global. Mas não se sabe como faria isso porque justamente há uma grande concentração dessa produção na China. Tudo indica que a dependência do mundo em relação ao oriente também se estende à área de saúde e deve agora aumentar ainda mais.

 

Tanto a pandemia de 1918 quanto a de agora, em 2020, estão fortemente associadas às potências emergentes de grandes populações e suas respectivas economias pujantes em cada era. A teoria das relações internacionais considera as guerras como elementos cruciais para a mudança da ordem mundial ao longo da história. O que essa teoria ignora é o papel chave desempenhado pelas pandemias como uma modalidade de guerra diferente das convencionais, e na qual todos enfrentam um inimigo em comum, mas alguns se saem melhor do que outros, sendo diretamente beneficiados até emergir de fato como novas potências hegemônicas. O vírus não tem o poder por si só de derrubar impérios e erguer outros no seu lugar. Seria um reducionismo forçoso tentar explicar grandes mudanças internacionais por meio de pandemias. Mais problemática ainda seria fazer dessa uma relação causal. Não se trata disso. O que se quer aqui, aproveitando a oportunidade, é apenas mostrar que tais eventos históricos são importantes demarcadores de eras, porque apontam para onde caminha o poder mundial contemporâneo, bem como chamar atenção para um aspecto da realidade global geralmente subestimada pela historiografia tradicionalista e ainda mais pelos estudos das relações internacionais.

 

A economia mundial deve passar por uma forte recessão no ano do coronavírus porque a pandemia forçou as sociedades a pararem suas atividades, como a única forma de diminuir o número de mortes, em função da quantidade de pacientes que poderiam ser atendidos de uma só vez nos hospitais. Mesmo os EUA que vinham crescendo bem na última década sofreram um forte revés. Contrariando muitos analistas que defendiam alguns anos atrás a tese de que a potência americana estaria em decadência irremediável, e seria suplantada já em 2019 pela China, os EUA tiveram um desempenho econômico notável nos governos Obama e Trump, o que permitiu inclusive uma situação de quase pleno emprego e um dólar muito forte como a moeda internacional. Na verdade, era a China que demonstrava problemas crescentes na sua economia. Todavia, o covid-19 muda todo o cenário porque leva a economia americana para uma recessão forçada de consequências imprevisíveis. A pandemia se transformou no fator decisivo para o ocaso dos EUA, e não algo inerente a uma lógica de substituição de potências como supõe a teoria realista da política internacional. Apenas a China segue crescendo em 2020, ainda que em um patamar significativamente menor, colocando o dragão asiático, desse modo, no centro do mundo, embora os EUA mantenham seu vigor como mostra uma nova etapa de valorização do dólar no ápice dessa crise. E tudo isso, além de ondas de empobrecimento, violência e abusos dos direitos humanos, é consequência direta ou indireta do coronavírus, de uma maneira não prevista até hoje pelas análises convencionais.

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