Nota: “Constrangimento e perseguição a pesquisadores”

Boletim nº 46 – 08 de abril de 2021

 

Desde o começo da pandemia, nota-se uma série de ataques e perseguição a pesquisadores de diferentes áreas da ciência, com origens tanto de instâncias do Governo Brasileiro, como de grupos da sociedade civil. Nessa nota, apoiada pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR), o Professor Henri Acselrad (IPPUR/UFRJ) analisa o constrangimento dos pesquisadores diante dessa realidade.

 

Leia, a seguir, a carta na íntegra:

 

Desde o início da pandemia de Covid-19, a sociedade brasileira tem assistido a  uma intensificação de atos de constrangimento e perseguição a pesquisadores  de diferentes campos da ciência. Estas ações têm se originado tanto em  instâncias do Estado Brasileiro como em grupos sintonizados ideologicamente  com o atual governo. No exercício de suas atividades correntes de produção de  conhecimento de interesse público, pesquisadores têm sido vítimas de  difamação, ameaças, agressões, assédio processual, detenção por força policial  por ocasião de trabalho de campo, assim como objeto de inquérito por parte do  MPF. A intenção dos agentes de tais ameaças é a de atemorizar os cientistas e  dificultar que seu trabalho possa ser levado ao conhecimento da opinião pública,  alimentando com dados testados e comprovados o entendimento fundamentado  dos problemas por que passa o conjunto da sociedade. As condições para uma  efetiva garantia da liberdade acadêmica, prevista no artigo 206 da nossa  Constituição Federal, estão cada vez mais ameaçadas. A organização Scholars at Risk (composta pelos Global Public Police Institute – GPPi, Centro de Análise  da liberdade de do Autoritarismo -LAUT e Varieties of Democracy – V-Dem)  aponta que o Brasil tem hoje o segundo índice mais baixo de garantia da  liberdade acadêmica na América do Sul. Este índice é composto por indicadores  de liberdade dos cientistas desenvolverem suas agendas de pesquisa, a  possibilidade de divulgação e debate dos resultados, as condições de autonomia  universitária, a ocorrência de vigilância política nos campi e a garantia de  diversidade de manifestações culturais. A multiplicação de graves episódios de  violação de direitos de professores e cientistas aponta para a necessidade de  criação de uma instância interinstitucional de defesa da liberdade acadêmica no  Brasil. Uma articulação de uma diversidade de associações científicas poderá  contribuir para combater o obscurantismo, proteger e defender os pesquisadores  e pesquisadoras ameaçados e assegurar o exercício da liberdade de pesquisa,  ensino e divulgação do pensamento, da arte e do saber.”